terça-feira, 24 de outubro de 2017

Dialogo bem sucedido

Senta aqui pai,
Eu poderia me desculpar por te escrever post-mortem, mas assim como você, detesto rodeios.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Essa ausência de você nunca foi um sentimento qualquer. Não era ausência de um pai, era sua ausência... Era o Piragibe. Nada com você foi convencional, nenhuma experiência alheia serve de parâmetro para descrever nossa relação e talvez por isto nunca escutasse nem ao menos nos comparei aos outros. Eu sei que você iria me mandar parar de puxa-saquismo. Sua falsa modéstia sempre foi indisfarçável.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Indisfarçável. Talvez esta palavra te defina melhor que qualquer outra. Apesar de parecer extremamente enigmático foi a pessoa mais sincera que já tive o (des) prazer em conhecer. Suas palavras doíam como as laminas que me cortaram durante minhas crises de depressão na adolescência. Destas tirei duas lições importantes: Uma dor anula a outra; Minha capacidade de superação surpreende até a mim mesma.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Diferente do que acontece com resto do mundo eu percebi isso a tempo e te procurei. E te procurei. E te procurei. E procurei. E passei minha vida a te procurar. E você passou a sua a me esperançar. E você passou a sua a me conversar. E você passou a sua a me... Não sei o que você fez da sua vida. Sei do que fez comigo.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Meus piores defeitos são heranças de você, enquanto o resto do que sou é educação de rua. Internet também ajudou devo confessar. Irascível, incontrolável, deprimida, rebelde, inativa. Alguns adjetivos tatuados no nosso DNA. - E estou errada?
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Recordo-me de dois natais ao seu lado. No que importa para este dialogo fizemos todos a famigerada ceia de natal. Desastre. Você e a mamãe nunca se falavam e nem no natal única ocasião que sentaríamos todos juntos fez questão de quebrar o constrangimento que esmagava seus filhos naquela maldita mesa de madeira servida com pratos de porcelana, taças de cristal e comida farta de primeira. Era o que importava afinal, não era o que você sempre dizia? Que nós tínhamos tudo. Não havia motivo para lamurias. Era a vida invejada por todos. Fecham as cortinas e palmas.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti mas não se deve mentir para os mortos, certo? Mas e o contrario? Quando nasci você disse que não tinha a menor ideia do que faria comigo. Você e mamãe me planejaram, planejou meu nascimento, vida, formação. Não me diga que não.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Mesmo você pecando imperdoavelmente quando me fazia acreditar que não importava o que eu me tornasse profissionalmente desde que eu fizesse algo que me encantasse. Você pecou, pecou muito. Mentiu descaradamente. Sua única e mais cruel mentira. Importava. Sempre importou. A prova disso foi sua ausência ABSOLUTA nos últimos anos por achar, SUPOR que eu não estava estudando. Ao descobrir, a beira da morte sem ter forças para segurar meu telefone onde te mostrava o evento de posse do diretório você se arrependeu, e chorou. Chorou como uma criança que implora por um remédio para a dor. Disse estar explodindo de orgulho. Por quê? Porque seu pecado foi se importar mais com um papel símbolo de um poder – insignificante- do que com minha formação como pessoa. Você errou feio, rude. E eu nunca vou te perdoar por isto.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Mas eu nunca vou te perdoar pelo abandono intelectual. Pelo buraco na formação que você me deixou. Sempre foi um homem inteligente, um leitor assíduo e critico feroz – no sofá assistindo a globo-. Me ensinou a questionar e.... foi embora. Nunca me orientou em nada, não se deu ao trabalho de me presentear com um livro que talvez eu fosse gostar. Me mandava estudar por e-mail e não perguntava ao menos qual era meu nível de aprendizado. Leiam, Leiam, Leiam. Papiro. Papiro. Papiro. Ler o que, pai? O símbolo perdido de Dan Brown? Ah. Para.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. E nunca vou te perdoar por eu ter reprovado no primeiro ano do Ensino Fundamental. Nunca vou te perdoar por ter levado todos os seus livros – agora são meus, ô, obrigada- e nunca vou te perdoar por ter falhado tão miseravelmente em ser um pai.
Mas eu sempre vou sentir sua falta. Sempre, sempre. E eu te odeio por isto. Eu te odeio por que hoje, com você morto eu sinto a sua ausência com a mesma intensidade que sentia enquanto você ainda respirava. Eu te amei e te procurei incondicionalmente. E por fim, quando mais precisei de você... Ausência.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti.  E sou forte. Sei é que sou forte mesmo. Sou Getulina, Valentina, arretada. E com esse dialogo encerro meu pesar sobre sua morte e te entrego minhas ultimas lagrimas. Hoje se completam quatro meses que você não existe mais. Mas para mim sua inexistência já fez bodas.
Eu sinto sua falta. Sempre a senti. Mas te amaldiçoo por me obrigar a crescer sozinha e fazer tantas escolhas erradas.  

E ainda sinto sua falta Piragibe, o Gordo.